Tens uma coluna de números à tua frente e sabes exatamente o que queres: somar só os que passam de 3000. O que não sabes é como se escreve isso no Excel. E é aqui que muita gente fecha o ficheiro e vai buscar a calculadora.
Esta semana fiz uma experiência e filmei-a. Não decorei fórmula nenhuma — escrevi em português o que queria e colei a resposta na folha. Funcionou. Mas não funcionou à primeira, e é essa parte que interessa contar.
O que eu escrevi
Abri o ChatGPT e escrevi isto, tal e qual:
Tenho uma folha de cálculo em Excel. As minhas vendas estão na coluna B, da linha 3 à 18. Quero somar só as que passam de 3000. Como faço?
Repara que não há uma única palavra técnica ali. Não escrevi “critério”, não escrevi “função condicional”. Escrevi o que queria, como o diria a uma pessoa.
Duas coisas nessa frase fazem toda a diferença:
- Disse onde estavam os valores — coluna B, da linha 3 à 18. Sem isso, a resposta vem com exemplos genéricos que não colam no teu ficheiro
- Disse o que queria, não como fazer. O “como” é trabalho dele
E não funcionou à primeira
A resposta veio assim:
=SOMASE(B3:B18;">3000")
Colei no Excel e apareceu #NOME? — que é a forma de o Excel dizer “não conheço esta função”.
Não estava errada. Estava errada para o meu Excel.
Porque é que isto acontece
O Excel traduz os nomes das funções para o idioma em que está instalado. E o português do Brasil e o português de Portugal não traduzem da mesma maneira.
O ChatGPT respondeu-me em português do Brasil, porque foi nesse registo que sentiu a pergunta. Em Cabo Verde usamos o Excel em português de Portugal — e aí a função chama-se SOMA.SE, com ponto.
| Português do Brasil | Português de Portugal |
|---|---|
SOMASE |
SOMA.SE |
CONT.SE |
CONTAR.SE |
Felizmente, as do dia-a-dia são iguais nas duas: SOMA, SE, MÉDIA e PROCV escrevem-se da mesma forma. Mas há dezenas que divergem, e basta uma para a fórmula não passar.
Escrevi-lhe então:
Deu erro
#NOME?. O meu Excel é português de Portugal.
Corrigiu de imediato. Colei outra vez, e o total apareceu.
Quatro regras para pedir bem
1. Diz em que idioma está o teu Excel.
Se escreveres logo “o meu Excel é português de Portugal”, poupas o erro todo. É a regra que vale mais do que as outras três juntas.
2. Diz onde estão os dados.
“Coluna B, da linha 3 à 18” é suficiente. Sem isso recebes um exemplo, não uma fórmula.
3. Diz o resultado que queres, não a função.
Se soubesses a função não precisavas de perguntar. “Quero somar só as vendas acima de 3000” é um pedido melhor do que “como uso o SOMA.SE”.
4. Se der erro, diz qual.
Escreve o erro tal como aparece — #NOME?, #VALOR!, #REF!. É a informação de que ele precisa para acertar à segunda.
O que isto não resolve
Seria desonesto acabar aqui, por isso não acabo.
Pedir a fórmula não te dispensa de perceber o que ela faz. Se colares uma fórmula sem saber o que está a somar, um dia ela devolve um número errado e tu não vais dar por isso — e um número errado num relatório faz mais estragos do que não ter número nenhum.
A inteligência artificial também erra com confiança. Diz coisas certas e coisas erradas exatamente no mesmo tom. Quem não tem uma noção mínima do Excel não consegue distinguir uma da outra.
Por isso a conclusão não é “já não é preciso aprender Excel”. É outra, e é melhor: já não é preciso decorar. Podes gastar a cabeça a perceber o que estás a fazer, em vez de a gastar a memorizar nomes de funções que mudam consoante o idioma do programa.
E isso muda tudo para quem sempre achou que o Excel não era para si. O problema nunca foi a tua memória.
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O problema nunca foste tu — foi a forma como te ensinaram.
